quarta-feira, 25 de março de 2009

All-ways


Um pé na frente
Outro atrás
O direito sempre
Na frente do esquerdo
3.600 passos até o ponto de ônibus
30 min até o trabalho
21600s de trabalho
2h de descanso
1431 o número do ônibus
2,20 o preço da passagem
60 páginas para o TCC
As mesmas pessoas os mesmo alunos as mesmas confusões a mesma aula os mesmos questionamentos o mesmo olhar insistente no relógio - essa hora que não passa!
Nada de extra-ordinário nisso tudo.
Pelo contrário.

Fonte de estudo para alguns filósofos, o cotidiano tem enlouquecido e desumanizado os homens. Os ônibus lotados, os engarrafamentos, as filas enormes têm tolhido a criatividade dos homens, que feitos tal qual máquinas, reproduzem, repetem discursos. E se sentem mcdonaldismente felizes, shopping center felicidade. 
"A cidade não pára, a cidade só cresce, o de cima sobe e o debaixo desce" gritou o poeta mangue-beat. O concreto invade a avenida que há dez anos era verde. As lagoas têm secado, o parque florestal é um campo de golfe, a praia local de despejo de esgoto, meninos e meninas sendo assassinados em portas de escola. 
Em algum lugar dessa cidade alguem ouviu e compartilhou dessa indignação mas o apito da fábrica anunciou - os galos não cantam mais, são eletrônicos celulares - outro dia de trabalho ônibus cheio de roupa amassada de filas de banco do leite do sabão de relógios de ponto de 3.600 passos até o ponto de ônibus de 30 min até o trabalho de 21600s de trabalho de 2h de descanso de 1431 o número do ônibus de 2,20 o preço da passagem de 60 páginas para o TCC.

- Pensar?
- Agora não posso, estou atrasado.

"E prá ter outro mundo
É preci-necessário
Viver!"
E subverter a ordem pondo a rotina de cabeça pra baixo, para ver o céu aos nossos pés.

Um comentário:

Alexsandro Oliveira Santos disse...

putaquepariu, que texto é esse?
transbordei-me, inundei-me, transcendi. a rotina se fez, poesia, nas entrelinhas. e do início ao fim, o jogo de palavras, se forma semiótica.