quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

num sonho ela deixou um recado pra mim. 

estávamos na casa de genilda, lá em pão de açúcar-al, matando saudades e contando histórias, quando tudo silenciou. eu perguntei o que aconteceu? é a mãe dela, responderam quase sussurrando. ao chegar na porta pra dar uma espiada só enxerguei um manto azul, no chão formando a imagem de um rio. num instante o manto foi se espalhando pelo espaço tomando tudo, nos cobrindo e nos acolhendo. 

despertei com aquela agradável sensação no corpo. eram 02h02. num segundo adormeci e uma data veio 15/02. despertando novamente conferi: quarta-feira que vem. 

entendi o recado. 

to indo te ver.



domingo, 19 de maio de 2013

Canção Natalina III


Acordou ainda meio bêbada, vestido amassado, muito rouca.

Não lembrava de nada do que havia acontecido na véspera do natal.

Nem do seu estripe bem na hora que o papai noel chegou trazendo os presentes, 

nem de sua mãe desmaiando ver o piercing no bico do seu seio, 

nem de ter cantado simone a noite inteira, entre aplausos e vaias de seus sobrinhos.

canção natalina II




no ano passado
vestiu-se de laçinhos
perfumou-se
não correu com os primos pelo quintal
ansiosa,
esperou a noite inteira

à meia noite e uma
tocaram a campainha

se ajeitou na cadeira
consertou os laços e a sobrancelha

quando a porta abriu
era só o velho que morava
na marquise da esquina
pedindo as sobras da ceia

de manhã
no lugar do patinete
encontrou uma meia
e um vestido bordado

esse ano
vestiu-se de preto
fumou todos cigarros de sua tia
e à meia noite
rolava no chão da sala
despenteada e toda amarrotada.
meio sonambulo
acordou e repetiu o roteiro:
café barba banho chave e porta da rua

já na rua
o sol ardendo na testa 
percebeu que
era sábado 07h da manhã 
do primeiro dia de férias

voltou pra casa e deixou-se apagar novamente
só acordou as 15h do outro dia

Natal de um ano qualquer



às 17h na fila 
pagando os últimos presentes

às 19h no rádio 
a hora do brasil divulga os últimos dados do ano

às 21h na sala
nada de "so this is christmas"
só o samba alucinado alcoolizado

e nada de o galo cantar missar

não se faz mais natais como antigamente
eram 20 e tantos dias antes do velhinho chegar

o agora é já
perú ainda meio crú
cerveja quente
cartão de crédito estourado
dois engov antes
e dois engov depois



Ela finge ser adultera
Ele finge ser hétero
Cúmplices
saem  a noite
quando as casas estão acesas
os vizinhos na janela e
os cachorros pela rua

- Vou por aí
Dizem batendo a porta

O maior desejo dela é que desconfiem
Ele, não
morre de medo
e fala grosso

Já é tarde
quando voltam
meio trôpegos

Ela só pensa em chegar
em casa
na cama
no seu homem

Ele ri
penas pra todos os lados
cigarro na boca
e se denuncia
cantando pela casa
bethania, roro e alcione



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Não, eu não amo a Tereza

Me interesso mais pelo Joaquim
Sua barba escura, sua inteligência, enfim...

Anteontem sai com Raimundo
sambamos a noite inteira
não paramos um segundo.

Ontem dormi com João e
hoje acordei com Drummond
tomamos café
e fizemos promessas de réveillon.

Muitos entraram e saíram dessa história
mas o que mais gozou
foi o pinto do tal do Jota
que não gostando de xoxota
caiu dentro dos cus
e se refastelou.



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Na barba por fazer
Sambando no terreiro
Sem me esconder

Trago de volta à memória da pele
Tudo que fui ontem
E me faço mais vivo hoje
Intenso
Pulsante
Insano

Abram as portas
as janelas
se ajeitem pelo chão
na cozinha em frente ao fogão

Em cada cm² deste lugar
no rabisco da parede
na almofada espalhada no chão
na cueca pendurada no box
na fumaça
no perfume
na risada
no choro emocionado
eu estou

no pé
o axé
na cuca (que biruta!)
no des-cabelo a revolução

vermelha
azul
de sardinhas
e muitas cócegas

eu
homem
in
home

terça-feira, 14 de junho de 2011

Vim só dar despedida

ao som de despedida (Marcelo Camelo)

Acredito que ao falarmos sobre coisas que têm nos magoado e entristecido, ajuda a nos libertarmos delas e ficarmos bem mais leves.

Há mais de um mês vem e vai a vontade de escrever sobre meu pai, que partiu cansado dessa longa jornada chamada vida. Partiu e ficou a casca ali no sofá cama, que era nosso ponto de encontro e de discussão dos mais variados temas. Nós gostávamos de conversar sobre tudo até sobre coisas das quais discordavamos da opnião um do outro. Ele me ensinou a discordar, questionar; eu tentei ensinar a ele que era importante dialogar.

E ficou isso: o diálogo. E mesmo que demorasse pra acontecer, era um encontro incrível e aprendiamos um sobre o outro. Engana-se quem diz que ele não sabia nada de mim. Sabia demais. Do seu jeito, acolhia as minhas pequenas revoluções já na adolescência, abraçava meus projetos com o teatro, ria comigo e chorava junto, na subida da ladeira, na formatura e nas muitas alegrias.

Quando me olho no espelho, o vejo refletido ali. Se sou como hoje sou, devo a ele. À sua irreverência, à sua forma livre de ver o mundo, às suas lutas contra o cotidiano opressor, às nossas conversas no bar, na praia, na fogueira e sofá.

E sem precisar dizer nada, ele me autorizou a ser como eu queria ser: artista, diverso e livre. De cabelo pra cima e de barba vermelha.

Quando conversarmos sobre meu avô, ele dizia de forma orgulhosa: Sabe o que o seu avô me deixou de herança? Algo muito mais importante e mais valioso que qualquer quantia de dinheiro: o caráter.

E foi isso que ele me deixou: um aprendizado fenomenal de ser quem você é, sem, no entanto, oprimir ninguém.

Quando ele partiu, fui à praia e joguei flores no mar em sua homenagem. Hoje, homenageio com esse texto e com essa canção.







segunda-feira, 23 de agosto de 2010

intuição

"Ler é libertar a palavra que estava enclausurada no papel

Palavras gostam de voar e ecoar o eco de seu pleno sentido sonoro"

a gaiola do som - wado e realismo fantástico

sábado, 7 de agosto de 2010

quase 30

Não foi a toa não, que nasci mineiro e cresci baiano. Mas do que poético isso fala da minha essência.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

23h56 ou Leo ésse

Chegou abrindo as portas do armário, as janelas. Libertando-me.

A luz invadiu o quarto, o colchão que mais tarde seria o nosso ninho de amor, durante dois verões e três invernos. Os meus cabelos penteados se tornaram revoltos, a bicha recalcada que era tornou-se militante, e hoje enfrenta homofóbicos.

Os poemas tão espalhados pelo chão, as fotos foram deletadas por acaso. Mas ainda estão guardadas as sensações daqueles dois anos e pouco.

O amor quando acontece não vai embora facilmente, nem quando o final do texto se anuncia.

Amor como esse permeia a existência daquele menino, que hoje, homem barba na cara se apaixona pelas bainhas das calças dos moleques libertário arianos.

Libertação pode ser um bom sinonimo para a relação daqueles dois, que começou numa noite de junho e que terminou há dois ano num show de uma cantora popular. Enquanto eles se beijavam, tocando os lábios pela ultima vez, as bichas ovacionavam a diva e tentavam invadir o palco.

Tá na memória da pele, tá registrado nas revista literárias. Amor como aquele talvez nunca mais aconteça na vida de nenhum dos dois.

domingo, 25 de julho de 2010

aqui



ao som de Forasteiro - Thiago Pethit

Passava das nove da noite quando ele chegou, com seu cigarro e sua camisa xadrez inconfundíveis. Forasteiro, veio como uma onda em maré de março, revolvendo areia, destruindo muros, assustando pescadores, tragando-me pro fundo. Nesse mar eu não sabia mais nadar. Deixei meu corpo afundar, propositalmente. Senti o instante em que me afoguei na lembrança do seu cheiro, do seu beijo que eu não cheguei a conhecer. Desejei isso: afogar-me engolindo muito da sua água, seus fluídos se confundindo com os meus, ir morrendo aos poucos nesse amor que nunca há de existir.


quinta-feira, 20 de maio de 2010

ao som de como 2 e 2

a sala tinha um quadro de van gogh pregado na altura dos nossos olhos quando estávamos sentados. as cadeiras eram de vime e confortáveis. ela sentou na minha frente e quis me ouvir. sim, ela era uma terapeuta e eu estava num consultório de psicoterapia; tinha cerca de dez anos que não voltava a um lugar como aquele. e me senti confortável e fui abrindo as caixas que guardava só pra mim, em meus bolsos, em meu intímo: caixas de diversos tamanhos, grandes, pequenas, coloridas, pretas.

é apenas o começo.


"Tudo é igual quando eu canto e sou mudo/ Mas eu não minto não minto/ Estou longe e perto

Sinto alegrias tristezas

e brinco."

segunda-feira, 10 de maio de 2010

deixe que a música invada sua casa e que o som deixe te levar pra outras paisagens, outras paragens. deixe que a lembrança invada sua cabeça permeie seu corpo e arrepie seus pelos.
aí foi assim: coloquei um disco do radiohead pra tocar no computador e passei horas lendo o livro da paula dip sobre o caio f. aí sentir uma falta da porra, como só os baianos saberiam dizer e sentir, falta de algo que nunca vivi.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Prece n.0

A prece(ado) come c(r)ú.

Prece n.365

Os sonhos durante o vôo vieram como alucinações. Se eu fosse astronauta talvez não durmisse uma só noite. Mas como saber se é dia ou se é noite sem ter os pés no chão?