sábado, 20 de fevereiro de 2010

Cordel de despedida Assentamento Dom Mathias



“Minha vida é andar por esse País!
De Salvador para Itaberaba
De Itaberaba à Ipirá
Vindo ali pela Conceição
Para pousarmos no Ciatá.

Doze dias no assentamento
Passando em rio, riacho
Suando no sol a pino
Esperando o grande momento
De começarmos as Oficinas
De iniciarmos o Entrosamento

Passa boi, passa boiada
O carro cai até dentro d´água
Piaba vai de carona
Celular sai para nadar
E a força dos homi e das mulher forte
Não deixa o carro afundar (...)

Nessa história tem muitos personagens
Muita gente a agradecer
Se começasse pelo A
Demoraria um tantão até chegar ao Z.

Se gasolina fosse ouro
Nós não teria dinheiro para pagar
Tamanha quantidade que Janete
Teve que beber para funcionar (...)

Teve rabada, teve tripa,
Limão, leite e até homem pra empurrar
Janete, quando teimava empacar

E tudo isso vai deixar recordação,
Dos homi e das mulé
De todo esse sertão.
Vamo lembrar também da alegria
Das crianças e dos jovens Que folia!
E de todo aquele sambão
que fechou a primeira aula
Eita que emoção!

E no final dessa jornada
Aqui no Dom Mathias
O corpo ta moído
De tanto peso carregar

Entra em carro, saí de carro.
Acorda cedo, antes mesmo das galinhas,
Pro almoço preparar.
E os alunos, eita menino!
Vem de muito longe Para nos proporcioná
momentos de muita emoção
Que dentro desse “Cordel”
Nem mesmo vai dar

Uma hora, meia hora,
Nesse Sol a caminhar,
Atravessando rio,
passando em pasto,
Tudo isso para teatrar
Com esse povo raçudo
Que veio até o sertão
Compartilhar dessa arte
E um pouquinho revolucionar
Trocando em miúdos
E reinventando o Bê-a-Bá.

O tempo passa, o tempo Voa
E vamos chegando no finá.
Desse canto que é um resumo
Desse nosso caminhar
Que foi em passo junto
Assim coladinho
com esse povo especiá

Já nos Quarenta e Cinco
Vamos anunciando o grande finá
E com emoção nos despedimos
Porque amanhã logo cedo
Antes mesmo que amanheça
Colocamos o pé na estrada
Levando na cabeça
Muitas histórias com certeza
Dessa temporada pelo sertão

Somos o Grupo de Teatro Roda Moinho
Aqueles que no início não nos conheciam
Amanhã com certeza
se lembrarão”.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

20 DIAS NO SERTÃO

21/01/2010 - Primeiro dia

Partimos ontem às 07h30 da Rodoviária de Salvador em direção a Itaberaba, para pegarmos lá o carro que iamos utilizar durante a viagem: Jorge. A história do nome desse carro é engraçada: utilizado pelos assentados, o carro que se chamava Oggio (Marca Fiat) e de repente por não conseguirem falar o nome direito, ele foi rebatizado de Jorge e assim ficou.
Antes de chegarmos, Jorge tava na oficina. Passamos lá, pegamos ele mas na hora de partir ele não saiu do lugar. Mas Jorge!!!

O mecânico muito simpático, Berinho, nos emprestou o seu Fiat 147 e assim partimos para a feira para almoçarmos, tomarmos uma cerveja (a primeira de muitas durante a viagem) fizemos compras (muitas compras) e pé na estrada em direção a Ipirá. (cerca de 40 min de carro até lá).
Irreverente como somos, eu Flávia e Rosa, rebatizamos o carro de Berinho. Se havia um Jorge aquela seria a nossa Janete.

Janete deu alguns probleminhas na estrada. A marcha tava dificil de engatar e algumas vezes paramos na estrada. O caminho até a fazenda aonde iriamos durmir e aonde seria a nossa base, era lindo. Muitos cactos e um céu azul lindo.

Logo que chegamos já de tardinha, tiramos tudo do carro, respiramos um pouco e fomos até o Assentamento Dom Matias. Na estrada o pôr-do-sol foi extraordinário.

No assentamento encontramos com Silvano que sentou conosco para acertamos os ultimos detalhes para as oficinas. Ele nos contou algumas histórias sobre o assentamento. Eita povo resistente.

Na volta para a fazenda paramos nas Malvas, povoado próximo ao assentamento, para tomarmos umas cervejinhas. Pronto. Fomos o acontecimento da noite. O bar que tava vazio encheu de pessoas, entre homens mulheres e crianças. Rimos muito daquela situação.

O ponto alto da noite nas Malvas foi Rosa correndo para ver a cena da novela enquanto abasteciamos Janete. As mulheres que estavam no bar chegaram perto do balcão e ficaram junto com Rosa comentando a cena.

A saída do povoado foi coroada com muitos raios no horizonte. Os raios num céu escuro tem uma beleza muito mais intensa do que no céu da cidade cinza e poluída. As cores inclusive são muito mais nítidas do que em Salvador.

Chegamos em casa no Ciatá, jantamos e ficamos conversando sobre o dia. Estávamos exaustos e rapidamente fomos durmir.

Durmida muito boa. Um silêncio....

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

19/01/2010

Pronto. A mochila tá arrumada. Amanhã logo cedo tô de partida. De volta pro interior, pro sertão. O ano começou lá. Partir dessa vez tá melancolico, to aqui ouvindo um jazz, tomando uma cerveja pra diminuir tamanha ansiedade que véspera de viagem me dá.
Tudo tá na mochila, não tem nada faltando. Mas fica aquela sensação.
Vou escrevendo e me despedindo das coisas com a cabeça, pensando em cada pessoa. é sempre assim, viajar pra mim tem tom de despedida. Não vou apagar tudo isso, deixar pra ver mais tarde a agunstia que tô de viajar, de demorar de ir pro banho, de deitar na cama, de durmir.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

diário de hoje

05/01/2010

emaranhado há mais de uma semana no sertão de chão vermelho com lua nascendo no horizonte e um silêncio que dá pra ouvir até a própria respiração.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

memória da pele

queria escrever algo sobre o dia de hoje mas a única coisa que consigo lembrar é do abraço macio e eterno que ele me deu assim que me encontrou.

domingo, 6 de dezembro de 2009

a caminho do ser-tão

Ciranda pé no chão
Estrada a fora
Sertão a dentro
de cactos voltados aos céus
como mãos,
que esperam a água da chuva
que não chega
a 1km.
São os olhos dele
que me conduzem
sentados um ao lado do outro
enquanto o cirandeiro
aperta o cigarro da poesia.
Um pé ante o outro
a roda rodando
a poeira subindo
pela estrada
que vai dar no Ser-tão.
Ser-tão que reinvento
antes mesmo de chegar:
brilha, pulsa
ouvido-coração
palma da mão.
E ainda falta muita estrada
asfalto aperto de mão
muito prazer:
cordel ciranda e fuloresta.

19.11.09