domingo, 14 de dezembro de 2008

Dias de alguma poesia

Para Maroja, o cabrón.




Havia passado pela recepção e agora subia lentamente os degraus da escada que dava a acesso ao primeiro andar do Hotel Texas. Carregava com muito cuidado um grande embrulho - que chamava muita atenção das pessoas ao entrar no ônibus - tinha inclusive se preocupado em cobrir aquele grande pacote com um tecido vermelho bem bonito. Não parecia muito pesado, mas ele carregava com as duas mãos - como se embalasse um filho.
No primeiro andar, ele pegou um elevador daqueles bem antigos que você só encontra nos centros antigos de qualquer metrópole com mais de um milhão de habitantes. Um dia, numa conversa informal ele me disse que nunca conseguiria morar numa cidade com menos de um milhão. Gostava daquela multidão de pessoas bem juntas nos pontos de ônibus quando chovia - a impressão que tinha era que nesse momento, só naquele instante, todas protegiam uma as outras.
Estava só no elevador e pôde sentir o cheiro de desinfetante barato no ar. Apertou o botão do décimo terceiro andar e viu as grades - com certa dificuldade - se fecharem a sua frente. Pronto, estava a caminho do seu paraíso particular.De uns tempos pra cá, pelo menos uma vez na semana, se hospedava naquele hotel barato. Três horas lhe custavam apenas dez reais.
O quarto era o 1302, onde havia uma janela bem grande com vista para o centrão da cidade velha, uma cama quadrada de madeira escura, uma mesa de cabeceira aonde estava um abajour quebrado e uma escrivaninha com uma cadeira, bem de frente para a cama.
Sempre que chegava naquele quarto seguia como um ritual secreto: Fechava a porta, caminhava até a escrivaninha, colocava o embrulho. Ao pousar o embrulho na mesa, encostava as mãos nele e numa respiração profunda de olhos fechados acariciava aquele grande pacote - permanecia parado em pé com as mãos no mesmo lugar durante alguns segundos. Lentamente, ia abrindo os olhos e num movimento circular de cabeça via toda a dimensão daquele quarto, que naquelas próximas três horas passaria a ser o seu mundo particular, o seu paraíso particular.
Com muita calma, passava a desembrulhar o pacote. Ao desatar o último nó, costumava num movimento bem rápido puxar o tecido vermelho e deixar aquele objeto totalmente a mostra. Seus olhos brilhavam como da primeira vez, quando seu avô vindo do sotão trouxe aquele grande embrulho envolto num tecido vermelho. Seu avô a tinha guardado desde o tempo de telegrafista e agora passaria aquela máquina de escrever, que tanto tinha lhe servido, ao neto mais novo que, como só ele percebia, tinha pretensões artísticas e gostava de escrever poemas em folhas de papel de pão.
Aquela máquina de escrever era sua maior relíquia e todas as quintas o acompanhava até o 1302 do hotel texas, para naquelas esparsas horas ouvir todas as confissões do jovem rapaz de apenas 17 anos.
Ele só tinha 17. E tocava as teclas da máquina como se tocasse uma mulher pela primeira vez, pousava o dedo bem de leve em cada tecla, sentindo a textura de cada letra - a letra A já estava bem gasta e a W se destaca das outras pela falta de uso - depois passava em movimentos crescentes a datilografar os seus pensamentos mais íntimos que guardava dentro de si durante quase uma semana e que ali, naquele confissionário, derramava em forma de poesia.
Como um maestro ao piano, ele tocava as teclas rapidamente. Com o ouvido sempre próximo para puder escutar o som vindo da máquina. E aquele som tomava o quarto, tomava a cidade apartir da janela do hotel. E parecia que, por um momento na cidade, todos paravam para ouvir a nova sinfonia composta pelo menino que ainda nem tinha barba na cara.Havia naqueles momentos de silêncio, uma cumplicidade entre ele e a cidade.
Ele não entendia muito bem mas sempre que saía, ao final das três horas, um chuva fina caía e um violino era ouvido lá longe. E era tão bonito, ele me dizia, era como se a cidade agradecesse a ele pelos momentos ternos de alguma poesia.

Aquelas quintas eram dias de alguma poesia.



Um comentário:

Alexsandro Oliveira Santos disse...

poxa, como é rico, de sentimentos. de cenas. senti cada palavra de uma forma tão intensa, que tive momentos de alta fruição.