terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Para Caio F.

(Ao som do disco Qualquer Coisa, de Caetano Veloso.)



Quando ele chegou já era bem tarde. Trazia os livros protegidos pelo seu terno. Estava tão elegante. O cabelo solto, revolto - quando conversava comigo costumava passar a mão nos cabelos, jogando-os para trás. Isso ficou como sua marca, como sua maior lembrança - o jeito de jogar os cabelos, dando a ele um ar de juventude transviada.
Já passava das 02h da madrugada, estava meio bêbado de tanto vinho. Chegou em silêncio. Despiu-se e deitou ao meu lado, completamente nú. Gostava de sentí-lo assim nú, desde a primeira noite, enconstando seu corpo contra o meu. E durmiámos a noite inteira e vistos de cima pareciamos um corpo só. E éramos.
Na primeira vez que nos olhamos foi numa vernissagem. Ele, escritor e eu, estudante de artes. Passamos a noite na varanda do casarão, conversando, tomando vinho do porto. Os convidados já haviam ido embora, o escritor homenageado também, só estavam ali nós dois e os garçons que não sabiam, constrangidos, como nos avisar que estavam encerrando as atividades. Rimos sem graça e em meio as desculpas descemos as escadarias daquele casarão secular e tomamos a rua.
Parados em frente ao portão não sabiamos que rumo tomar, se desceríamos a ladeira e nos sentaríamos na praia e veríamos o nascer do sol, ou se tomaríamos um taxi em direção a sua casa, e lá falaríamos mais sobre poesia e fumaríamos baseados.
Chegamos na sua casa em silêncio, já era muito tarde. A rua estava deserta, apenas umas janelas azuis. E latidos de cachorros ao longe.
Com a casa ainda no escuro nos beijamos pela primeira vez. Sua barba mal feita arranhando meu rosto de adolescente-calouro de artes cênicas. E nos deixamos possuir com uma ânsia, que ali mesmo rancamos nossas roupas e sentimos pela primeira vez os nossos corpos, os nosso pêlos roçarem e nossos suores.
E desde então passamos a frequentar um ao outro. Suas bibliotecas, os meus filmes, nosso samba e amor feito a noite inteira.
Ontem, quando chegou cansado das aulas, bêbado e pesado cheio de livros, eu estava durmindo. Fui acordado com ele me tocando os pés, fazendo carinho nos dedos, beijando-me desde embaixo até encontrar-me a boca. Tinha espalhado os seus versos e textos pelo quarto inteiro e algumas velas e incensos. E numa espécie de ritual nos amamos, como se fosse a primeira vez - sempre parecia a primeira vez, apesar de sabermos, de conhecermos os pontos, os cheiros um do outro. Fizemos amor em cima dos seus versos, ele declamando suas histórias e eu, interpretando seus personagens clássicos e gozamos do nosso amor de há muito tempo.



5 comentários:

Digo S. disse...

adorei o final!
ótimo texto, quiabento! =D

Dom disse...

um anjo lá do céu de tanto rir de mim quase quebrou a asa, sabia?
mira imperfeita. tsc, tsc

gostei do texto pra lá de intimista.
;)

bacio!

Digo S. disse...

'Fizemos amor em cima dos seus versos, ele declamando suas histórias e eu, interpretando seus personagens clássicos'

é de uma singularidade poética isso que escreveu que não faz idéia. adorei muito.

abraço, quiabentíssimo!

Marlon Marcos disse...

Amei. Caio sou eu !

Teco Sodré disse...

Passando a frequentar mais esse blog... =)